30.9.06

noite aberta (apontamentos - 3)

(estranhamento)

= = =

"Não há certos nem errados, miúda. A vida é... a vida. Não há que d’zer-se. Não há sentidos no que faz-se ou não faz-se, (...) apenas sentimentos. Por isso sempre disse-t’ que agarrasses o que qu’rias co’as duas mãos." (Carlos Nascimento Silva, "A Casa da Palma")

= = =

Rosa
Cheiro bom de sabão de coco resultado da mania de lavar sempre as mãos na pia da cozinha, era o que sempre me dizia a minha Menina, explicando porque gostava de mim.

Era mesmo lavando as mãos na pia da cozinha, pra preparar a comida, que eu estava quando vi o gato entrar na toca. Não tinha visto a minha Menina entrar, mas na mesma hora soube do que tinha acontecido. E me preparei, que a minha Menina, eu sabia, ia precisar de mim.

E, ainda bem, ela tinha o gato.

Passou o dia todo com ela escondida lá dentro. Daí, à noite quando a Mãe veio procurar a minha Menina pro jantar, ela já tinha de tal modo afundado na escuridão da toca que nem que quisesse conseguiria se desvencilhar do buraco, porque ela não ia poder sair carregando toda a escuridão lá de dentro. Ainda bem que o gato estava co'ela.

Fui espiar no buraco e vi que a minha Menina estava dormindo, com o gato enroscado nas pernas.

(...)

= = =

E depois, depois daquilo tudo, a Menina que tinha entrado no buraco com o nome de Clara, e que mas quando ela saiu era Nina, porque já era outra (e depois, depois daquilo tudo), ela virou Clara novamente.

E tudo foi esclarecido. Depois, depois daquilo tudo.

= = =

(Mas sinto sempre um tanto ou quanto de remorso pela falta de uma [improvável] história lógica.)

= = =

Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
(
Florbela Espanca)

Rio, 1996

29.9.06

entre leão e unicórnio

Ontem, antes de dormir, ganhei um caderno em branco, que deixei à noite ao meu lado, na mesa de cabeceira.

Quando acordei, para minha surpresa, ele cheirava a jasmim. E estava todo escrito, da primeira à última folha, com uma caligrafia floreada que não é a minha, recheado de:
- histórias quixotescas
- casos quiméricos
- aventuras rocambolescas
- ilustrações filigranadas
- e poesias com uma delicadeza de renda.

Ao abri-lo, um beija-flor escapou voando.

Nada consegui fazer hoje o dia inteiro, absorta na sua leitura.

= = =

"(...) Leões de sonho não rugem. Aquele levantou a cabeça, sacudiu a juba e firme sobre as patas retomou a sua tarefa de guardião. Nenhum sonho mais sairia das noites da rainha. Nenhum entraria. Nem mesmo aquele em que um unicórnio azul galopava e galopava, levando no dorso um rei para sempre errante."

- Marina Colasanti, "Entre leão e unicórnio"

ou isto ou aquilo

(entalhe)

= = =

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


- Cecília Meireles, “Ou isto ou aquilo”

= = =

Lado a lado

Eu do lado de cá sou orifício de alta pressão
Espirrando plumas e painas em aerossol. Histriônica.
Do lado de lá sou campos de margaridas gigantes
e dentes-de-leão. Mulher-biônica.

Eu do lado de cá sou maneira; do lado de lá,
assombração.
Do lado de cá sou madeira; do de lá, algodão.
Do lado de cá sou chaleira; do lado de lá, alçapão.
Do lado de cá, sótão. Do lado de lá, porão.

Do lado de cá, sou araponga
e do lado de lá, ribeirão.
Do lado de lá, areia movediça
e do lado de cá, furacão.
Do lado de lá sou festiva.
Do lado de cá, irritação.
Do lado de cá sou maquiagem;
do lado de lá, sedução.

Do lado de cá, sou cascuda. Do lado de lá, cansada.
Do lado de lá, profundeza. Do outro, mordaça.
De um lado, ácida. Do outro, árida.

Do lado de cá sou presa; do outro, surpresa.
De um lado, peso. Do outro, tristeza.
De um lado, vacilo. Do outro, vario.
Do lado de cá sou prisão. Do outro, confusão.

Eu do lado de cá sou fachada;
do lado de lá, fechada.
Do lado de lá não tem consistência;
do lado de cá, lassidão.

Do lado de cá sou espelho. Do outro, reflexo.
De um lado, entupida. Do outro, vazia.

Cá, fora. Lá, dentro.

Eu do lado de cá sou porém.
Do lado de lá, também.
Do lado de cá não sou eu.
(E, pra dizer a verdade, do lado de lá
também não.)

No meio, sou abismo.
Quase
i n t r a n s p o n í v e l.

“Os Ministérios da Saúde e da Infra-Estrutura, em ação conjunta
e mediante publicação no Diário Oficial da União, vêm oficialmente anunciar
que as obras de construção da ponte para atravessá-lo
já começaram.”

vestígios

(momento coca-cola)


= = =
Estou cheia de peças soltas nas mãos e não sei bem o que fazer com elas. Eu andava por aí com as mãos nos bolsos. Hoje, a mão quando entra no bolso encontra a chave de casa, e segura firme.

Sempre gostei mais da lua do que do sol. Sempre tive medo de espelho e hoje descubro que era o meu rosto que eu tinha medo de encontrar - por trás da máscara. O menino que me aterrorizava era o filho que meus pais tanto quiseram e eu não pude ser? Talvez.
Tudo o que eu podia era acordar. E acordava amarrada, amordaçada, mumificada num casulo que não se abria nunca. Não gostava do meu casulo-caixão, claro.

Agora que começo a despontar mulher, agora que começo a me encantar menina, não consigo falar com a minha mãe. (Tenho medo de que ela as mate.)

Passei a vida inteira de alma partida: a de lá habitava um mundo mágico; a de cá só disfarçava, pra não decepcionar. Em caso de desavença, a de cá se desdobrava pra transformar em realidade o reino encantado, em vez do contrário. E mentia.

Não consigo entender como o que eu faço neste mundo pode ter conseqüências e gerar frutos que me alimentem depois. Não entendo as noções de cultivo e colheita. Sempre depositei no outro o atender todas as minhas necessidades, que foram sempre todas supridas antes mesmo que eu as percebesse - não consigo entender como não pode ser mais assim, automático. Não entendo o “comer o pão com o suor do meu rosto”. Achei que, no dia em que eu me curasse, acordaria num belo éden encantado. Não me ocorreu que esse jardim teria de ser plantado e cuidado.
E agora, o que faço com esse terreno inóspito ainda com tanto por fazer? Esta terra por lavrar?

O que me consola é o ter um riacho irrigando o fundo do quintal.
Aproximo-me, vejo-me refletida junto à margem e resisto à sua vertigem.
Preciso me descolar do meu reflexo – da minha imagem e semelhança – e encontrar-me de novo comigo.

noite aberta (apontamentos - 2)

(essa chuva que não pára)


= = =

O gato
Eu vi quando a Menina entrou no buraco, e fui atrás. Fui atrás porque vi quando, antes, ela tinha se iluminado toda daquele jeito, e soube que, se ela entrasse no buraco sozinha naquele momento, ela ia estar se metendo sozinha numa escuridão muito difícil de enfrentar sozinha. E eu fui atrás pra ajudar, que gatos conhecem a escuridão como ninguém, especialmente aquele tipo de escuridão.

Eu vi que ela ficou aninhada na escuridão, sem ter percebido ainda o tamanho todo que estava à volta dela — porque ela não estava vendo. Mas gatos vêem no escuro, e eu via todo o tamanho infinito que podia engoli-la a qualquer momento, e ela nem fazia idéia ali aninhada numa cantinho da escuridão. Mas as coisas são assim mesmo, nós gatos que vemos na escuridão mais do que ninguém é que sabemos — quantas vezes as gentes estão andando na beirinha do abismo e não fazem a menor idéia. E é ridículo, às vezes elas estão em caminhos tão mais largos, mas têm vertigem, ficam com medo e caem. Como é que pode, elas confiarem tanto assim nos olhos, sem a menor noção de sentir com o resto de si. Confiam tanto assim nos olhos, que são totalmente cegos, ou quase quase quase isso.

Pois então eu vi a Menina ali achando que estava numa toca, a boba — ela estava em outro mundo e nem desconfiava. Porque quando as gentes se iluminam todas do jeito que eu tinha visto ela se iluminar, eu sou gato, eu sabia, quando as gentes se iluminam assim é uma hora mágica, e a primeira porta onde elas entram, qualquer porta, desde que seja a primeira, a primeira porta onde elas entram é a porta para outro mundo. E é só porta de entrada. A porta de saída elas têm que achar, ou então cavar a sua própria saída, e esse é o grande problema que elas têm. A maioria das gentes que se iluminam, assim como a Menina se iluminou, e entra por uma porta, a maioria dessas gentes não consegue sair nunca mais, porque ficam tentando sair pela porta que é só de entrada, e por ali a escuridão que elas carregam não passa.

Então era muita sorte da Menina ter um gato pra dar sorte. E ela ia precisar mesmo de sorte, se quisesse aprender a se livrar da carga de escuridão já amarrada nela (e ela nem sabia), se quisesse aprender a procurar ou cavar a porta de saída, se quisesse aprender com aquele mundo e levar o que aprendesse pro mundo dela. E ela ia precisar mesmo de mim, se quisesse sobreviver àquilo tudo.

Rio, 1996

= = =

(...) a vida. / Há que merecê-la.
- Thiago de Mello

27.9.06

noite aberta (apontamentos - 1)


= = =

"O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudade da infância — quando, minutos mais tarde, se ergueu e caminhou em direção à casa, percebeu que não era menino mais."
- Fernando Sabino, "O Grande Mentecapto"

= = =

Meninas
Pois eu sabia agora que a vida não é como costumava ser. A vida era festa luminosa e de repente deixou de ser para mergulhar num escuro maior que o mundo, e eu me assustei muito com aquilo tudo. Assustei com a grandeza que eu de repente vislumbrei pràs coisas e que antes eu não suspeitava. Assustei muito mesmo e principalmente com aquela grandeza toda vir tão de repente eu não sabia de onde. Assustei, sabe, com todo o imenso insuspeitado da coisa quando ela ainda não tinha acontecido: como podia ter vindo de tão nada, de onde eu nada suspeitava, de onde nunca houve indício?

Porque não tinha havido nada lá antes, ou porque estava lá e eu não via - então, o que tinha me feito ver assim tão de uma hora pra outra? Não sentia nada diferente em mim, como se me tivessem nascido novos olhos. E no entanto o mundo me aparecia sob novos olhos, e tudo palpitava em novidade infinita. Então, de onde vinham os novos olhos, ou de onde vinha a novidade? — e era isso que me assustava, o imprevisível da coisa.

Me assustava a idéia de que havia escondidos além do mundo que eu via e que assim, sem ter nada além dele - ou seja, sendo ele mesmo -, já era tão complicado em si mesmo. Mas tendo coisas que eu não via ficava ainda mais complicado, porque eu ia ter que fazer, também com o que eu não via, alguma coisa. Porque eu pelo menos ia ter que prestar atenção todo o tempo, vigiando pra ver quando e de onde aparecessem — e quem sabe então eu não descobria de onde vinham os escondidos?

— Eu então decidi que não ia enfrentar nada, e fui me enfiar num buraco no quintal.
— Eu então decidi ao contrário, que tinha mais mesmo era que enfrentar o escuro — pois se os escondidos se descobriam vindo de onde eu não via, eles só podiam vir do escuro que era onde eu não podia ver nada, eu que já tinha escarafunchado todos os claros e sabia que lá eles não tinham nada escondido. E fui me enfiar num buraco no quintal.

Passou o dia todo comigo escondida lá dentro.

Daí, à noite quando a Mãe veio me procurar pro jantar, eu já tinha de tal modo afundado na escuridão da toca que nem que quisesse conseguiria me desvencilhar do buraco, porque eu não ia poder sair carregando toda a escuridão lá de dentro. Chega uma hora que a gente só pode afundar, que é quando a gente envereda de tal forma por uma porta que ela não serve como porta de saída, só pode servir de entrada. E então era nisso que eu me via quando escureceu — eu tinha que procurar o que me servisse como porta de saída, ou então cavar o meu próprio caminho pra fora (se não quisesse ficar o resto da vida presa ali no escuro).

Rio, 1996.

= = =

ilustração: helenbar, "entrando na toca do coelho"

la vida es sueño

(elogio da cegueira)

Sueña el rico en su riqueza,
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.

Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.

- Calderón de la Barca, "La vida es sueño"

26.9.06

quem faz um poema

"Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela abafada
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado."

- Mario Quintana

25.9.06

despertar

(despertar)
despertar, ou: depois de um longo e tenebroso inverno (a porta se abriu)
Saí de mãos no bolso, segurando firme as chaves de casa. Não sabia ao certo se serviriam na fechadura na volta, mas tinha de arriscar. Não dava mais: eu precisava ver se ainda havia gente no mundo.

24.9.06

caracol

Carrego minha casa comigo
feito um caracol.

Minha casa são os meus livros,
os meus escritos,
minhas palavras;

minha casa são os meus gatos,
os meus filhos,
os meus amigos,
o meu amor.

Minha casa é o ar que eu respiro, o peito pleno,
as costas retas, as pernas firmes,
o abraço que me dou.

Minha casa é o regaço onde me refugio,
o seio que me alimenta,
o acalanto que me tranqüiliza.

Minha casa é o meu pedaço de chão;
carrego-a no colo com cuidado.

A minha casa é o meu tempo.

Carrego minha casa pelo caminho
e ela me leva consigo.

= = =

Pra Shi.

23.9.06

instantes

= = =

Clarice, sempre ela:

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já, que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. (...) Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido.”

Depois dela, eu às vezes tenho a impressão de que não me sobrou nada pra dizer.

(Clarice Lispector, "Água-viva")

22.9.06

uma mulher é uma mulher ainda que

Uma mulher é uma mulher ainda que.
Palavras e formas não comportam o conteúdo.
Uma mulher pode ser um jeito
Uma costela, um defeito.
Uma mulher transborda pelos cantos
Enche as medidas
Contorna o desafino
Toca punheta e toca sino.
Uma mulher pode ser um grito
Uma barriga
Um precipício.
Uma mulher pode ser um abismo ou um porto
E pode ser os dois
E é.

Maria Rezende

20.9.06

carta ao filho ou filha que virá

Filho ou filha que já amo tanto
e que trago comigo desde sempre,
antes mesmo de carregar em mim;

você que pra mim por enquanto é sonho
com dia e hora pra se realizar:

Te espero com música nos olhos,
com uma felicidade mal-contida que me escapole pelo canto dos lábios,
com o coração palpitante, o peito arregaçado em flor.

Sou toda pétalas pra ti, toda frutas,
terra, leite e mel pra te dar.
Pra ti, entrego-me toda em doçura.

Não sei onde você está agora, nem quem você é, nem o que virá
a ser; e mesmo assim, mistério dos mistérios, já te amo.
Já te amo tanto e quando você chegar quero tanto te amar
que nem sei dizer como, nem o quanto. Já te amo tanto
e tudo o que quero é aprender a te amar, te acolher, te respeitar,
e espero te ajudar a ser uma pessoa boa e feliz.

Peço incessantemente a Deus que te faças uma pessoa feliz.

(Você de certa forma também me dará à luz.
Trazer-te comigo, aliás, já é dar-me à luz a cada dia da minha vida.
Rogo que de alguma forma eu te transmita
um pouco da luz que você me dá só por já estar aqui,
na minha esperança.)

Mal vejo a hora de te conhecer, meu filho ou filha que amo tanto assim.
Eu e tua outra mamãe, que nos amamos muito, preparamos
uma família feliz pra te receber.
Te queremos muito, filho nosso ou nossa filha,
e construímos nossa casa com cuidado e carinho pra você:
teu quarto, de dia, que será cheio de sol e espaço pra crescer
e, de noite, teu berço, esculpido em madeira e veludo de sonho,
doce e macio pra você repousar.

Vamos passear pelo mundo e descobrir muitas coisas juntos?

Quero muito ser tua mãe e espero
poder te ajudar no teu caminho.
Filha ou filho tão amado, queria muito te pedir “vem logo”,

mas não quero,
pois te quero afinal do teu jeito, e no teu tempo.

Filho ou filha querida, venha então,
que esta mãe tua te espera simplesmente
(e tua outra mamãe também)
com amor.

19.9.06

expectante

(nem te carrego ainda no ventre mas já te sinto
mexer-se dentro de mim, grávida que estou
da tua idéia.)

= = =

ilustração: adivinha? ;-)

libação (elisa lucinda)


(bananeiras)

É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a ploriferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes,
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores

As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas,
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas

É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza

É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio

Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro

Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.

A vida não tem ensaio
mas tem novas chances

Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores

Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!

15.9.06

Tempo de

(esperança)
"a falta de imaginação termina com qualquer coisa, das atitudes mais complexas às mais simples. como não colocar um ingrediente a mais ao seguir uma receita? é inevitável. os melhores cozinheiros são os de olho. minha avó nunca anotou nenhum de seus pratos, porque me dizia: 'a comida é que me diz quando está pronta, não eu'.

(...) o desejo não combina com seguranças e senhas. o desejo é não saber o que vai acontecer depois."

Carpinejar ("Distância e distanciamento", in O amor esquece de começar)

14.9.06

transição

"retrato de família"
= = =

Meus dias de samambaia, chorona por parte de uma,
cacto por parte do outro,
estão chegando ao fim.
Curiosamente, tanto uma quanto o outro
andam mudando dentro de mim.
Uma, neste momento, é assunto delicado
que ainda não sei dizer;
faz-se um grande buraco negro dentro da minha boca
toda vez que tento preenchê-la com palavras a respeito.
O outro, com as porradas da vida,
parece que está virando um cacto desdentado,
que coisa, anda espetando menos.

Mas que sei eu
- se mal consigo saber de mim, que dirá dos outros.

Pois eu, enquanto futura-ex-samambaia,
venho por meio deste declarar
meu desejo de me transplantar deste xaxim
e lançar raízes direto na terra
como alguma árvore interessante,
de caule sólido e frondosa copa,
das que dão sombra
e frutos.

= = =

certo, certo, ando desejando muito e realizando pouco, talvez. ou não, sempre fui super lenta na superfície, mesmo.

(fico avisando "eu vou!... eu vou!... olha que eu vou!..." um tempão, até que chega uma hora, vão ver e eu - puft!, já fui. pois então: de repente agora é mais uma daquelas horas em que eu fico "eu vou!... etc." e daqui a pouco, quando forem ver, puft.)

então, não é que as coisas aconteçam de repente, é que eu sou lenta na superfície mesmo, mas (que nem tartaruga) debaixo d'água até que eu me mexo direitinho.

de qualquer modo, é desejando que se começa, não?

presa fácil

tear
a teia renitente
da aranha
é perfeitamente
pertinente
neste instante

= = =

a meteorologia informa: a umidade relativa do ar em 9 estados brasileiros caiu para menos de 20%. a defesa civil encontra-se em estado de alerta. elevado risco de incêndios e desidratação.

= = =

enquanto isso, na sala de justiça...
minhas neuroses andam mais assanhadas que um bando de pererecas no brejo. tem sido difícil controlar as bichas.

deve ser a desidratação iminente.

12.9.06

fantasmas...

faz semanas que tento criar coragem pra ligar pra ela.

= = =

Oração
Te perdôo por te trair. (Chico Buarque)

...carrego desde pequena
teus dentes afiados
me roendo os ossos,
me haurindo as veias,

e tua sombra que arrasto,
pendurada nos ombros,
me arriando as costas
feito um lastro,

tuas mãos nos meus calcanhares
aferradas feito grilhões –

levo o teu peso
no meu coração
como se fosse meu;
a minha pele
fina e anêmica
como se fosse eu
a assombração.

E quando te olho
não é o teu rosto que vejo,
mas o buraco, e o susto,
e os espectros, e as bruxas medonhas,
os labirintos e pesadelos e as insônias
i n t e r m i n á v e i s, abissais
da minha infância.

Me perdoa,
porque não solto este fardo;
me perdoa porque eu me exauro;
porque não te perdôo;
porque não me perdôo;
e não quero mais.

A tua bênção,
eu te peço, mãe,
e o teu perdão
pra redimir os teus pecados
e os meus,

Amém.

degelo II


Degelo
Não sei por que
este cheiro teimoso de terra molhada
que não passa,
esta umidade de barro nos pés
– vou tomar banho, tiro as meias
e estão cheias de lama –
o cabelo melado de orvalho.
Esta sensação de amanhecer
que não entendo, a sensação
de estar cercada por uma revoada
de borboletas,
não sei por que.

E o meu corpo ainda cortado ao meio
(recompondo-se, mas ainda cortado ao meio),
este formigamento,
esta sonolência.

Aninhada no meu casulo,
sonhando com sementes,
dentes-de-leão
e primaveras,
não entendo,
só espero.

9.9.06

degelo I


(cidade dos sonhos)

Vocês verão
ela vir entre icebergues na primavera
pra espantar as moscas
jogar fora meus óculos e minha miopia
desencantar

e então não sei

(Rio, 21/06/2004)

= = =

(suspiro)

5.9.06

madrugada



Hoje à noite choveu tanto
e sonhei com amigos distantes e terras a conquistar.
Acordei ainda escuro
(ainda toda a casa dormia)
e ganhei as ruas, fui ver a cidade
sob as últimas gotas de chuva.
E, na penumbra do amanhecer,
cheguei a tempo de ouvir o coro de grilos
e elfos, cantando na grama
os resquícios de sombra.

(1999)

= = =

foto: "going home" - genevieve shiffrar

4.9.06

dá licença...

...que eu bem ganhei um desenho feito agorinha, especialmente pra mim! :-)



valeu, albini!
(e pensar q tudo começou com um tal de elefante... ;-)

= = =

ps: o desenho tem a ver com uma certa novidade de uns dias atrás...

a arte de amar, ou: nada como um dia após o outro


pôr-do-sol visto da ponte, voltando de niterói há uns anos atrás, com o lula de cabeça rachada igual sambalelê depois de uma cabeçada num cano - lembra disso?
nada como um dia após o outro, meu amigo...
= = =

A arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

(Manuel Bandeira)

= = =

Garoa
e se hoje ele voltasse...?

pára tudo:

apagar a luz
e encarar o bicho
debaixo da cama
que toda noite
tenta pegar o teu pé.

a noite em branco...

...aí,
o toque da alvorada...

espreguiçar-se
abrir a janela
botar as manguinhas de fora
sair na rua
e deixar a chuva
escorrer pela cara.

pra lá da ressaca
unicórnios azuis
cavalgam no fim do mar
embolados com as nuvens.

é só prestar atenção.
= = =
ps: "azul" desse jeito vc fica ainda + parecido com um barbapapa... ou com o blu, aquele "fantasminha" da mansão foster para amigos imaginários. ;-)

eu quero ser um barbapapa


Esta é a família Barbapapa
Pra nos contar
Que cada um dos Barbapapa
Pode mudar de forma e jeito
Muito barba satisfeito
Por se transformar

Barbapapa é rosa é cor-de-rosa
É mais rosado que uma rosa
Barbamama é igual carvão
Um preto cor de escuridão
Barbazoo é amarelo
Barbalala é um verde natural
Barbacuca é alaranjada
Com laranja, um laranjal

Barbatinta é cabeludo
É preto e como adora ser pintor
Às vezes tem manchinhas de outra cor
A lilás é Barbabela
Barbaclic é muito azul
Barbaploc é valentão
Vermelho como um camarão
E todos os Barbas aqui estão

Eu quero ser um Barbapapa
Quero brincar
Ser da família Barbapapa
Poder mudar de forma e jeito
Muito barba satisfeito
Por me transformar

Nesse meu jeito Barbapapa
Quero brincar
E eu quero ser um Barbapapa
Eu quero ser um Barbapapa
= = =

3.9.06

uns dias chove, noutros dias bate sol


Uns dias são de chuva;
uns dias são de sol;
uns dias são de chuva;
uns dias são de sol;

uns dias são de chuva...

= = =

("Mas o que eu quero é lhe dizer
que a coisa aqui tá preta")

1.9.06

é tarde! é tarde! tão tarde até que arde!

"é tarde! é tarde! tão tarde até que arde! ai ai meu deus! alô adeus! é tarde! é tarde! é tarde!"
- Coelho Branco

= = =

O radinho de pilha entre os ombros
Uma senhora bem simples rodou e rodou a vitrine de uma loja, até que entrou. Pediu para "experimentar" um radinho de pilha. "Posso testar?". A atendente pensou que ligaria o rádio. Mas testar era colocar o aparelho nos ombros, para ver se pousava bem nos ouvidos. Mexeu-se muito até que encontrou uma posição confortável para o radinho. E amansou os olhos por alguns minutos como se ouvisse uma estação imaginária. Cerrou os olhos e rebolou o queixo devagar. Juro que ouvi a música que não existia apenas acompanhando seu rosto.
A atendente irritou-se com a demora e perguntou se ela levaria o produto. "Vai pagar com cartão de crédito?". Ela respondeu que "mais ou menos" e saiu.
Não gosto de chamá-la de senhora. Vou chamá-la de Alice. Alice experimentou o rádio como quem estava se vestindo, como quem prova comida, como quem testa um travesseiro ao dormir. Ela colocou seus longos cabelos de trigo ao lado para calçar o som. Abençoou a rua do seu pescoço. Como uma rosa que não se apequena com a água entre as pétalas. A água, uma pétala que não murcha.
Não temos mais paciência para experimentar um amor. Colocar as roupas antes de tirar. Dentro da gente, há sempre uma pressa que aponta: "vai levar?" Não fechamos os lábios para lembrar ou mastigar as palavras. Há sempre alguém que acelera o relacionamento. Que agride antes de compreender, que julga antes de conviver, que pretende ler sem se aproximar da caligrafia. O amor não é suspeita, é superar a desconfiança. Todos se conhecem sem ao menos pedir permissão para entrar, licença para sentar e puxar a cadeira. Como se soasse um zumbido de "agora ou nunca?". Nunca será se não houve véspera, nunca será se não haverá tempo de ser depois.
Queremos um amor rápido, não um amor constante, não um amor com as medidas do corpo. Ou com as medidas da voz nos ouvidos, que não seja largo demais nos ombros, nem pesado demais para carregar de um lado para o outro da casa. Como o rádio )de Alice.
Pressa não é urgência. Pressa é pular para o final. Urgência é precisar todo momento e não deixar o começo.

Fabricio Carpinejar

(Ilustração: Helenbar)

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Pra começar o fim de semana sem pressa...

o serviço meteorológico informa

"No Rio de Janeiro, previsão de tempo parcialmente nublado a encoberto, sujeito a pancadas de chuva esparsas. Temperatura em queda. Possibilidade de nevasca no fim do período."


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Frente fria
Faz dias que um frio incontrolável me domina.
Chego a ter medo de abrir o armário
e dar de cara com uma colônia de pingüins
instalada na gaveta das meias,
ou descobrir uma foca entre as minhas calcinhas,
ou encontrar um bloco de gelo
boiando na pia da cozinha.

Hoje de manhã resolvi tomar uma providência.

Acendi uma fogueirinha dentro do meu iglu
e preparei um litro de café com gengibre e canela;
vesti minha suéter vermelha,
coloquei minhas meias de lã,
minhas pantufas de emergência
- e assim, devidamente encasacada,
saí pra fazer bonecos de neve e tratar de aproveitar
enquanto o inverno não acaba.

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HAROLDO: Tubarões de neve?
CALVIN: Esse aí já era.

segredo


(cá pra nós: acho q tô com a taramela da poesia solta outra vez!)