24.4.07

um brinde

(sim, sim, dica da moça - ando frequentando mais.)


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o que me terá dado nos cabelos, não sei. sei apenas que deram pra encrespar, encherem-se de rococós e rosquinhas. talvez seja por eu ter acreditado piamente por toda a vida que eram lisos - tolinha. e agora que os descubro cheios de caracóis (cada qual com sua casinha), é como se desabrochassem em sua plenitude, em todo o vigor da sua verdadeira natureza. como se, enchendo-me a cabeça de caraminholas pelo lado de fora, me esvaziassem um pouco as do lado de dentro.

em verdade, em verdade vos digo que, na média, ter adentrado a casa dos trinta me fez bem. mesmo sendo este um balanço quase tardio, já três anos passados, concluo: sim, fez-me bem, especialmente para a exuberância. deus meu, onde antes eu colocava meu rosto? por onde antes andava a minha cara, tão lavada, tão crua, de bastas e selvagens sobrancelhas caindo-me sobre os olhos e sem nenhuma maquiagem? como antes as marcas de expressão nuas de qualquer corretivo? e, epítome do desmazelo, supra-sumo da falta de autoternura, os cabelos crendo-se lisos, eu crendo-os oleosos, nós crendo-nos todos sermos nós iguais à máscara, e todos acreditando na ilusão assim tão bem forjada. minha máscara de nudez colada à minha cara.

agora uso maquiagem, e nunca antes havia mostrado ao mundo a cara tão limpa, a alma tão lavada. um brinde ao rímel e às saias, evoé!

e começam-me a despontar os primeiros cabelos brancos. não daqueles esporádicos, cabelos brancos acidentais da adolescência e dos vinte anos, pontuando dissabores eventuais ou alguma descompensação hormonal. não, estes de agora são firmes e fortes, brancos pontilhados de brilhos de purpurina. estes são pra valer, são filhos da lua que gesto em meu ventre, filhos das marcas que porto em meu rosto, filhos das raízes que me nascem no colo e hoje despontam no decote dos vestidos, filhos da puta que me habita a alma e venho aprendendo a conhecer, respeitar e amar. meus novos cabelos brancos são o apogeu dos meus novos cachos: minha coroa de fios de prata, marca da minha libertação.

brindemos a isso. saúde!

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desde as 5h40 aqui, vim acompanhando o céu amanhecer; parecia tão cinza uma hora atrás, mas à medida que clareava foi se revelando do mais perfeito azul de abril. a propósito de como as aparências enganam.

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o que uma sessão de dez minutos diante do espelho pela manhã não faz a uma mulher. sobretudo num dia de bom humor capilar.

(e ainda mais depois de uma noite frutífera. ;-)

2 comentários:

Anônimo disse...

Brindar aos cabelos brancos, à maturidade, ao feminino.....faço questão de estar junto a ti nesse brinde!!!!
Lindo texto, minha muito querida amiga balzaquiana!!!!!
beijos,

Dudu disse...

Eu nunca me senti tão 'vinho' (melhorar com a idade) quanto agora! Mas nada como ter saúde, e investir em saúde.

Agora, quanto ao amanhecer: se da janela do laranjal o amanhecer já é show, imagina ali na praia vermelha ou na lagoa, saindo pra remar... Nessas horas eu vejo que sou um privilegiado, e todos nós cariocas somos quando nos damos conta disso. ;)