28.7.08

Acordei no quarto abafado e seco, a claridade forte do meio-dia enfiando-se, branca e listrada, pelas venezianas da janela

Acordei no quarto abafado e seco, a claridade forte do meio-dia enfiando-se, branca e listrada, pelas venezianas da janela. Um zumbido ao mesmo tempo próximo e distante de moscas revoando. Ou talvez mariposas. Na sombra do canto oposto do quarto, acomodado na cadeira em cima das roupas que eu tinha despido antes de deitar – ou as teria jogado no chão? Ou as dobrara e depositara delicadamente, zelosamente, ao pé da cama? Ou as havia embolado com displicência, para então embebê-las em querosene e atear fogo, e nem o incêndio no quarto, nem o estrépito dos bombeiros com suas sirenes e machados, puderam arrancar-me do profundo torpor? (Mas, sendo assim, não deveriam as paredes enegrecidas e ainda encharcadas do rescaldo, e o fedor asfixiante da fumaça? A menos que se houvessem passado séculos e o tempo transcorrido se encarregara de apagar as marcas do incêndio com as próprias mãos.) Ou eu não estaria lembrando bem, e as tais roupas jamais existiram, e eu já havia chegado àquele lugar nua na noite anterior? – não sei, tudo é mistério – na sombra do canto oposto do quarto, acomodado na cadeira, um vulto me observava.

Não saberia dizer há quanto tempo esperava, mas percebia já um véu sutil de impaciência.

De pêlos arrepiados ao som compassado da sua respiração, sentei-me na cama com cuidado, como se o sentar-me me tornasse capaz de enxergar melhor na penumbra e assim divisar-lhe os traços, e perguntei: “Pois não?”; o vulto imóvel, a respiração inalterável.

As horas se escoaram – eu podia dizer pela cor da luz, agora menos dura, e o deslocamento da sombra pelos sarrafos da veneziana, e as câimbras e espasmos irresistíveis que me ferroavam os músculos como um enxame de vespas – e o vulto imóvel, a respiração inalterável, o véu sutil de impaciência que nos separava como uma lâmina.

Escuro lá fora já, e o silêncio da noite, eu empapada de suor não sentia mais as vespas, nem as mariposas, e o vulto imóvel, e sua respiração, e a lâmina riscando a pele, e os dias escapando em revoada –

E os dias sucedendo-se inexoravelmente, eu insensível como uma pedra e a lâmina cada vez mais concreta varando-me os ossos, e o vulto e sua imobilidade insuportável. As semanas acumularam-se em milênios, e não passávamos agora de duas sombras e uma muralha no meio, sozinhos num universo em ruínas, e a irrealidade cada vez mais esmagadora só não tinha ainda me matado de frio graças às teias tecidas por centenas de milhares de aranhas que me embalsamaram como num sarcófago.

E outros tantos anos-luz decorridos e a imobilidade nos reduzira a todos – gentes, vultos, sombras, cicatrizes, zumbidos e aranhas – a um tênue ponto de luz, um único grão de areia que, em sua solidão, era tudo o que restava do que fora outrora o conjunto dos eventos cósmicos em sua totalidade.

E quando a luminosidade débil do derradeiro grão do universo bruxuleou e ia morrendo, uma fração de instante antes de mergulharmos nas trevas e no caos original o vulto descruzou as pernas, inclinou-se para a frente – e na réstia de luz vi que seu rosto era idêntico ao meu –, olhou-me no fundo de onde antes ficavam meus olhos e perguntou, com a voz mansa e grave do tempo que finalmente se esgota: “quem é você?”.

Um comentário:

RÔ Esper disse...

Ah! legal... e depois sou eu quem gosta de filmes de terror.......%#!!!??????
Agora falando sério: belo e profundo texto...Forte!!!
beijos,