27.7.08

Meu pai era um sólido bloco de ferro negro

Meu pai era um sólido bloco de ferro negro. Eu adorava sua potência, sua virilidade, sua autoconfiança briosa, seu porte altaneiro. Vivia na sua órbita; era para junto dele que eu corria ao menor sinal de perigo ou ameaça, e à sua sombra eu me sentia protegida e não havia nada que eu temesse. Até que um dia soprou uma rajada mais forte e vi meu pai trepidar, ranger e estatelar-se com estrondo no chão.

Ficou estirado, imóvel, a cara enfiada no pó.

Só aí parei para olhar bem e notei que ele não passava de uma estátua desprovida de espírito e carcomida pelos elementos. O que até então eu julgava ser sua voz retumbante não passava do vento soprando pelos buracos de ferrugem que eu acreditava serem sua boca, nariz e olhos — quando na verdade ele nada via. Permaneci muito tempo estática diante do ídolo oco que fora o centro da minha vida até ali. Não saberia dizer quando comecei a me afastar em passos lentos; perdi-o de vista; a esta altura, mesmo que quisesse voltar atrás, não saberia mais encontrar o caminho. (Deve estar lá até hoje. Arrastar tamanho peso seria tarefa árdua, e para quê? Inutilidade.)

A verdade é que esqueci-me dele por completo e hoje acredito piamente ter vindo ao mundo por obra e graça de alguma concepção imaculada. Entretanto, sua imagem retinta está gravada no meu espírito, e a prova é que nunca mais consegui deixar de enxergar força onde só existe dureza.

Um comentário:

rô esper disse...

é, amiga...a gente cresce, os outros enfraquecem...
bjos,